Andinos Grappling reúne atletas em Santiago para fortalecer o Jiu-Jitsu hispanofalante

Conectar atletas de diferentes países em torno de um objetivo comum foi o desafio que deu origem ao camp realizado pela Andinos Grappling e Cohab em Santiago. Segundo os atletas Lucas Cantó e Pipo Chiappe, a iniciativa nasceu da percepção de que o principal obstáculo para o crescimento do Jiu-Jitsu hispanofalante não era a falta de talento, mas sim a falta de conexão entre praticantes que, durante anos, evoluíram em ambientes separados e com poucas oportunidades de compartilhar experiências, conhecimento e preparação.

Ao longo de três semanas, o camp reuniu atletas de diferentes países em uma experiência de imersão que combinou treinamentos, convivência e preparação esportiva. Para Cantó, a iniciativa demonstrou a demanda existente por esse tipo de encontro dentro da comunidade hispanofalante e permitiu a criação de vínculos que continuaram mesmo após o encerramento das atividades. Mais do que um período de treinamento, o encontro buscou funcionar como um ponto de conexão para atletas de toda a região.

A seguir, a entrevista completa:

Gostaria que você me contasse todos os detalhes do camp em Santiago

O camp em Santiago foi uma demonstração prática da visão por trás da Andinos Grappling, um projeto que busca unir toda a comunidade hispanofalante e dar uma missão, um motivo pelo qual lutar. Quando pensamos no projeto, entendemos que o principal problema do Jiu-Jitsu hispanofalante não era a falta de talento. O que faltava era conexão. Durante anos, os melhores atletas da Argentina, Chile, Peru e outros países treinaram separados, cada um evoluindo dentro do seu próprio ecossistema, com poucas oportunidades de compartilhar conhecimento, experiências e preparação. O camp buscou resolver exatamente isso.

Durante três semanas reunimos atletas de diferentes países para conviver, treinar e se preparar juntos. Não foi apenas um seminário nem um evento de fim de semana. Foi uma experiência de imersão completa, na qual os participantes compartilharam treinamentos, hospedagem, refeições, atividades e objetivos. Os atletas não apenas evoluíram tecnicamente. Construíram relacionamentos, trocaram ideias, aprenderam diferentes formas de treinar e criaram vínculos que continuam muito depois do término do camp. Para nós, foi uma validação muito importante, porque demonstrou que existe uma necessidade real desse tipo de experiência dentro do Jiu-Jitsu hispanofalante. Mais do que organizar um camp, construímos um ponto de encontro para a região.

O Jiu-Jitsu e o estilo de vida costumam andar de mãos dadas: os treinos, as atividades ao ar livre e a união entre os atletas. Como um camp combinado com uma viagem ajuda a potencializar tudo isso de uma forma ainda mais eficaz?

O Jiu-Jitsu não acontece apenas durante as duas horas de treino. Grande parte dos aprendizados mais importantes acontece fora do tatame. Em uma viagem compartilhada surgem conversas durante uma refeição, caminhadas, momentos de descanso, preparação para uma competição ou até mesmo dificuldades próprias da viagem. Tudo isso gera um nível de conexão impossível de reproduzir em uma aula normal. Os atletas observam como outros competidores vivem, como se alimentam, como se recuperam, como lidam com a pressão e como organizam seus treinamentos. Aprende-se tanto observando as pessoas quanto treinando com elas. Por isso os camps geram uma aceleração enorme no desenvolvimento dos atletas e na construção de comunidade.

Sabemos que a viagem não reduziu a intensidade dos treinamentos. Como vocês fazem para que uma experiência tão diferente não tire o foco do objetivo principal, que é treinar duro e se preparar ainda melhor?

Porque desde o primeiro dia todos entendem qual é o propósito. Não viajamos como turistas. Viajamos como atletas. Existem momentos para conhecer a cidade, aproveitar e criar experiências, mas o eixo central continua sendo o treinamento. A estrutura do camp é desenhada em torno desse objetivo. Os horários, as sessões, a recuperação e o planejamento giram em torno da melhora do desempenho. Curiosamente, a energia do grupo ajuda a manter o foco. Quando você está cercado por pessoas que têm exatamente o mesmo objetivo, torna-se muito mais fácil manter hábitos e níveis elevados de comprometimento. A cultura do grupo acaba elevando o padrão individual.

Fala-se muito sobre a evolução técnica e o crescimento dos atletas latino-americanos nos principais palcos do esporte. Na sua opinião, qual é a razão da rápida evolução dos países latinos dentro do Jiu-Jitsu?

Acredito que estamos vendo o resultado de uma geração que já não aceita as limitações que existiam há dez anos. Antes, o acesso à informação, competições e treinadores de alto nível era muito mais difícil. Hoje, os atletas latino-americanos têm acesso ao conhecimento, podem viajar, competir e construir redes internacionais. Além disso, existe algo muito próprio da nossa região. Os atletas latino-americanos costumam desenvolver uma enorme capacidade de adaptação porque estão acostumados a treinar com menos recursos do que outras potências. Isso gera criatividade, resiliência e uma cultura de trabalho muito forte. À medida que essas qualidades se combinam com um melhor acesso à informação e à preparação, os resultados começam a aparecer.

Qual é a principal diferença entre os treinamentos e a preparação dos atletas da América Latina e a dos competidores mais tradicionais, como os dos Estados Unidos e do Brasil? Existe algo que vocês façam de forma diferente e que não seja visto em outras partes do mundo?

A diferença está diminuindo cada vez mais. Mas, se eu tivesse que destacar algo, seria a capacidade de adaptação. As grandes equipes dos Estados Unidos ou do Brasil costumam ter estruturas muito desenvolvidas e recursos enormes. Nós, historicamente, tivemos que encontrar soluções criativas. Isso obriga os atletas a serem muito versáteis e a valorizarem muito mais as oportunidades que têm. Também acredito que exista um senso de comunidade muito forte. Quando um atleta latino-americano conquista algo importante, muitas vezes sente que representa uma região inteira e não apenas a si mesmo. Essa motivação gera uma energia muito particular.

E pensando nos objetivos de longo prazo, qual é a principal meta da sua equipe para os próximos cinco anos? Alcançar mais competidores? Conquistar algum título específico? Ou existe algo ainda maior por trás desse projeto?

A meta nunca foi apenas vencer competições. Claro que queremos formar atletas capazes de competir no mais alto nível do mundo. Queremos ver representantes da nossa comunidade no ADCC, nos maiores torneios internacionais e disputando os títulos mais importantes do esporte. Mas isso é apenas uma parte do projeto. A verdadeira visão é construir o ecossistema mais importante do Jiu-Jitsu hispanofalante. Um lugar onde uma pessoa possa aprender, treinar, competir, viajar, consumir conteúdo, se conectar com outros atletas e se sentir parte de uma comunidade independentemente do país onde viva. Por isso nasceram os camps, os documentários, o podcast, a academia, os cursos e a equipe competitiva. Tudo faz parte da mesma missão. Revolucionar o Jiu-Jitsu hispanofalante e demonstrar que, quando os nossos se unem, todos crescemos mais rápido.

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